terça-feira, 18 de outubro de 2011

III Congresso da CNT e IV Congresso da AIT na Espaha em 1931



Apenas dois meses depois da proclamação da 2ª república se celebrou em Madri o 3º congresso da CNT e o 4º congresso da AIT no Teatro Conservatório de Madri, entre os dias 11 e 16 de junho de 1931.

As imagens deste documentário mostram diversas intervenções no congresso da AIT (Associação Internacional dos Trabalhadores) a que compareceram numerosos delegados. A seções reconhecidas na AIT reuniram uma consideravel variedade de representantes de grupos anarquistas de muitos países assim como de sindicatos independentes.

Angel Pestaña abre o congresso e é seguido pela intervenção de Rudolf Rocker, teórico anarcosindicalista alemão. Valeriano Orobón Fernández se encarrega de traduzir os discursos dos delegados estrangeiros. Entre outras, estão as intervenções de Miguel González (FAI) e de Francisco Arín (CNT).

Destacamos, nos dias atuais de sindicatos pelegos, atrelados aos patrões, aos governos ou ao estado, as principais reinvindicações expressas nesse congresso:
  • A criação de escolas
  • Fixação de um salário mínimo
  • Jornada de 6 horas de trabalho
  • Liberdade completa de imprensa, opinião e organização
  • Autogestão das indústrias pelos operários
  • Expropriação das terras pelas organizações dos trabalhadores rurais
E também as principais bandeiras expressas pelo sindicalismo revolucionário nesta ocasião:
  • A revolução social
  • A realização do comunismo libertário por ações revolucionárias de massa dos trabalhadores do campo e da cidade

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O vídeo original(sem legendas) pode ser baixado no megaupload.
E o arquivo separado das legendas no Opensubtitles.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Como identificar o protofascismo em nosso meio..

Cena do filme: Die Welle, A onda

Preocupado com a ascensão do fascismo na Europa, denominado de "nova direita", o pensador e semiólogo italiano, Umberto Eco, já em 1995, em artigo intitulado A nebulosa fascista, (Folha de S. Paulo-Cad.Mais! 14/05/95) propôs 14 pontos que visam distinguir o nazismo do "protofascismo" na sociedade contemporânea. (O "proto" refere-se aos sinais de um início ou os sintomas de ressurgimento do fascismo em nossa época).

A seguir, apresentamos 8 distinções entre ambos, baseados em U. Eco, S. Beauvoir, S. Sikek, entre outros da bibliografia consultada.

1) O nazismo tinha uma teoria das raças, do povo ariano naturalmente escolhido para mandar nos demais, era anti-cristão e seguia a filosofia materialista. Para Hitler, a decadência da civilização proviria obrigatoriamente do cruzamento de raças, portanto, sua solução era que a humanidade fosse dividida segundo as raças, onde haveria de fundar o Übermenshc (super-homem). Seu regime político era necessariamente totalitarista. Já o fascismo mesmo não sendo inteiramente totalitário, era um sistema de força que deixava a população dividida, entre os partidários da truculência e os pressionados a passar para o lado dos fortes, senão seriam perseguidos. Tanto faz se o fascismo for de estado, de uma instituição, de grupos ou indivíduo, sua atitude é fundada na intolerância, na perseguição aos diferentes e termina gerando efeitos traumáticos sobretudo naquelas pessoas que são despossuídas de poder. A tolerância é uma virtude que "tem certos limites, que são os de sua própria salvaguarda e da preservação de suas condições de possibilidade" (Comte-Sponville, A., 1995, p. 173-89).

Assim como não se pode ser tolerante com o criminoso, também não se pode ser tolerante com quem é intolerante. Karl Popper, observa que há um paradoxo da tolerância: "Se formos de uma tolerância absoluta, mesmo para com os intolerantes [e protofascistas]e se não defendermos a sociedade tolerante contra esses assaltos [agressões, abusos de poder, terrorismos], os tolerantes serão aniquilados, e com eles a tolerância". Portanto, ser tolerante para com o protofascismo e seus agentes - que são fudamentados na intolerância aos diferentes no modo de ser, de pensar e agir - é, pois se oferecer ao aniquilamento enquanto virtude e pessoa existente.

2) Um traço protofascista é o "culto da ação pela ação". A ação fascista é beligerante e carece de reflexão prévia, logo, é uma ação de fundo irracional ou passional e imprudente. O fascista não fala, age e faz discursos. Quer dizer, nele some a pessoa - que fala - para dar lugar ao discurso político em nome de alguma causa. O discurso que a engendra costuma vir em forma de razão e moral cínicas, de moralismo e legalismo positivista. Segundo S. Sizek, a "razão e a moral são cínicas" na medida em que eles sabem que fazem um ato mau, mas mesmo assim argumentam sobre a "justeza" e a "humanidade de seus atos". Sua denúncia não é baseada na justiça, mas no seu próprio sentido de justiça que visa prejudicar alguém, por vezes fazendo uso da delação, da palavra ferina, de insinuações e alusões e até pode usar de agressão física num momento de descontrole. (No caso do terror, a violência extrema é calculada racionalmente, portanto, não se trata de um ato louco, mas de um ato perverso). O protofascista, procura justificar que seu ato foi "para o bem coletivo...", "para evitar a decadência estética das artes...", "para evitar um mal maior" ou ainda como era freqüente nos tempos da ditadura: "para salvar a nação dos comunistas, da corrupção, dos gays", etc.

3) Enquanto o desacordo é sinal de diversidade, o protofascista pretende alcançar o consenso explorando o medo e a angústia das pessoas. O ambiente de trabalho, por exemplo, é lugar escolhido para gerar intrigas, divisões. Há estudos que trabalham com a hipótese de que espaços movidos pelo espírito protofascista produz mais esquizofrenias paranóides que os outros. Assim como existem seres humanos "terapêuticos", que fazem bem aos outros, também há personalidades perversas que tem a capacidade de causar desarmonia social, desequilíbrio psíquico e atravancar o andamento de projetos, desenvolvendo: desconfiança, ressentimento, inimizade, sensação de pavor, de perseguição ou paranóia.

4) ..a tática protofascista pode intencionalmente ocupar todos os espaços para fazer sua política de "tudo vale". Os indícios vão desde slogans do tipo "Brasil: ame-o ou deixe-o" (lembram do período Médice?), também, posicionamentos do tipo "quem não está conosco, está contra nós" (comuns em assembléias de decisões). Por vêzes, as atitudes moralistas ou legalistas "da letra" podem esconder interesses ocultos de ânsia pessoal pelo poder ou de gozo perverso em sustentar a atitude de beligerância.

5) A estrutura psíquica do protofascista tende a ser perversa e narcisista. "Perversa" porque são incapazes de amar outra pessoa e respeitar a lei que fundamenta a convivência humana e "narcisista" porque "acha feio o que não é espelho"; quanto patológico, o narcisista rejeita tudo que é diferente (idéias, opiniões, crenças, valores, modo de agir e de ser) e somente aceita o que é seu igual. Há patologia no seu ato de olhar que sempre acha alguém ou grupo como "mau". Para o nazista, o narcisismo está em atribuir a culpa de tudo de ruim na economia e na sociedade aos judeus. Hoje, o fascista pensa que aqueles que não se enquadram exatamente nas idéias, crenças e valores que ele acredita, devem ser queimados, eliminados socialmente ou fisicamente. A vontade de poder do nazismo e a intolerância do fascismo tem repugnância pela compaixão ou empatia que é a capacidade de se colocar no lugar do outro, de sentir-se na pele do outro e sofrer com ele. (O mesmo posicionamento do fascista acontece com o terrorista, com um diferencial: sua causa é o gozo místico que está acima da vida dele e de todos, não há compaixão, não há empatia, só fanatismo). É próprio da estrutura perversa e narcisista do protofascista: a dureza de caráter, a frieza de espírito, a indiferença, a secura no coração, a insensibilidade diante de um necessitado e sua tendência a falar mal dos que não se adequam à sua camisa de força moral. São os agenciadores das fofocas e da politicagem. Goebbls, o ministro da comunicação de Hitler, dizia que "uma fofoca é uma mentira que repetida várias vezes, terminam virando verdade".

6) O protofascista, acredita [delira] que está em marcha uma conspiração, uma rede secreta de conspiração. Os supostos inimigos podem ser os comunistas, os negros, os gays, as mulheres que estão subindo ao poder, todos aqueles que recusam a fazer pacto cego com ele, são vistos como os "do mau". Sua visão de mundo maniqueísta divide-se entre os que representam "o bem" e os que representam "o mau". Um fascista costumava dizer: "Quem não está do nosso lado é contra nós". É notável seu desprezo pelo pluralismo de idéias, a incapacidade pelo diálogo e debates de idéias. Eles pensam que estão sempre do lado do bem e da verdade absoluta. O protofascista vive a fantasia de ter sido eleito pelo divino para fazer o bem. Seu ideal e ação são messiânicos. (Nesse sentido, tanto os EUA, como os terrorista tem algo em comum: o messianismo delirante - escrevo esse adendo após os ataques de 11/09/01, em Nova York). Segundo U. Eco, os fascistas estão condenados a perder suas guerras porque são visceralmente incapazes de avaliar objetivamente a força do inimigo.

7) Para o protofascista, "não há luta pela vida mas vida pela luta". Acredita que o homem é o lobo do homem, a vida é uma luta em que vencem os mais fortes. Vivendo em estado de guerra permanente, ele vê o pacifismo como fraqueza ou simplesmente um mal na sociedade atual. Umberto Eco chama de "complexo de Armagedon", porque há nele a crença de que haverá uma batalha final para derrotar de vez os inimigos, após o qual o movimento controlará o mundo. Após a "solução final", haverá uma Era de Ouro, o que contradiz com o princípio da guerra permanente no fascismo. Enquanto a Era de Ouro não vem, alguns poucos fascistas escolhem viver perigosamente o gozo da luta política. Mussolini, símbolo número um do fascismo, que se aliou a Hitler na 2a. guerra mundial e que acabou pendurado de cabeça para baixo, exposto à execração pública dos italianos, tinha como lema de vida "vivere pericolosamente". Dizia: "Prefiro um dia de leão a mil de ovelha".

8) Para além das idéias de Umberto Eco, observamos que o protofascista é movido pelo esquizo-paranoidismo. Por exemplo, em casa tende a ser uma pessoa de convivência harmônica, aparentemente equilibrada, mas quando está com seu grupo de iguais ideológicos, entra em "transe grupal", isto é, alucina um campo de batalha onde se oferece aos imperativos da gestalt do grupo, como um soldado, uma bestasfera agressiva, intriguenta, e suicida, enfim, abdica de sua identidade pela "causa" mítica. Alguém disse que tais pessoas são tomadas pelo "espírito de Torquemada" (inquisidor espanhol que mais matou em nome da 'santa inquisição') ou pelo "estilo Goering", o segundo homem após Hitler, que na intimidade era bonachão, amante das artes e da cultura, mas no trabalho colocou sua inteligência na invenção dos campos de concentração e no extermínio em massa dos não arianos. (Esse estado de "transe" poderia ser coletivo e vingativo; uma vez que é puramente passional poderia causar efeitos extremamente imprevisíveis, tanto homicidas como suicidas. É só dar uma olhada na história das guerras).

Uma vez terminada a ditadura militar, no Brasil, de clara orientação fascista, lamentavelmente ainda sobrou seus efeitos camuflados entre diversos grupos sociais, tal como aquele que ensaiou um movimento separatista no sul do Brasil. Na convivência cotidiana, os protofascismos estão expressos nos assédios morais, nos discursos que desqualificam o próximo, nos atos de injustiça, nas bisbilhotagens dos grampos telefônicos, nas intrigas calculadas para prejudicar um colega de trabalho ou estudo, nas falas e atos provocativos de qualquer espécie, etc.

Diante do obscurantismo de nossa época, da esclerose de idéias e de valores, da mediocridade de pensamentos que não consegue dar conta de entender a complexidade de nossa época e, sobretudo, a ausência de sabedoria em todos os setores da existência humana, só nos resta ficarmos de plantão para prevenirmos em relação ao protofascismo individual ou institucional.

Ou seja, no cenário mundial contemporâneo, há indícios de aparecimento de um novo fascismo ( neofascismo ou protofascismo) conforme apontamos no início desse artigo, projetando uma nova Auchwitz, ou outros novos movimentos movidos pelo ódio, que obrigam os diferentes a pregar no peito ou na alma suas ideologias tresloucadas, símbolos e atitudes de intolerância e de opressão do mais forte sobre os fracos.

Infelizmente, o fascismo, nazismo e o racismo estão entre nós sob inocentes disfarces. (Já o terrorismo, pela sua própria natureza e modo cruel de expressão é de origem perversa e narcisista, gostando de se expor os seus efeitos e fetiches visando obter gozos "loucos" com o sofrimento dos outros).

Contra o protofascismo, o nazismo, o racismo e o terrorismo resta-nos mais que nos defendermos, rápida e eficazmente, desmascará-los, desmantelar sua armação homicida e suicida, que pode aparecer em qualquer momento e em qualquer parte do mundo. Nossa senha deve ser: "não esquecer, resistir, denunciar e sobretudo apostar na VIDA, sempre!!!".

Fonte: Prof. Raymundo Lima - UEM: http://www.espacoacademico.com.br/004/04ray.htm


Sugestões de bibliografia sobre o fascismo:

BEAUVOIR, S. O pensamento de direita, hoje. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1972
BECKER, S. A fantasia da eleição divina: Deus e o homem. Rio de Janeiro: Cia. de Freud,1999

COMTE-SPONVILLE, A. Pequeno tratado das grandes virtudes. São Paulo: M. Fontes, 1995
DOMENACH. J.M. Propaganda política. DEL, s. d.
ECO, U. A nebulosa fascista. Folha de S. Paulo - Cad. Mais!, 14/05/95
FREIRE COSTA, J. Narcisismo em tempos sombrios. In: Percursos na História da Psicanálise. Rio: Taurus-Timbre, 1988
REICH, W. Psicologia de massa do fascismo. Porto: Publicações Escorpião, 1974
SIKEK, S. Eles não sabem o que fazem: o sublime objeto da ideologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1990
______. O superego pós-moderno. In: Folha de S. Paulo- Cad. Mais!, (...) 1999

Filme:

O OVO DA SERPENTE. de I. Bergman
FASCISMO SEM MÁSCARA. Um antigo filme soviético que revela os instrumentos de propaganda do fascismo

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Oreste Ristori fala sobre a delinqüência


"A delinqüencia, então, encontra a sua razão de ser, o seu determinante em certas condições sociais dentro das quais é circunscrita a vida do indivíduo. A dificuldade econômica das populações, o analfabetismo e o embrutecimento moral que são a conseqüência lógica, a educação ao escravismo e a violência ensinada nos quartéis, nas escolas, nas igrejas, por meio de jornais, de livros, de orações ou de romances que exaltam a glória dos tiranos e assassinos, a tirania política, a exploração econômica, o embrutecimento religioso, exemplo constantes de todas as velhacarias e todas as baixarias que os governantes e padres oferecem sistematicamente ao povo: heis os fatores mais importantes se não os únicos da delinqüência, considerada de baixo de seus diversos e múltiplos aspectos"
Oreste Ristori - La Battaglia, São Paulo, 04/12/1906
(Fonte: Romani, 2002, pág. 42)


Uma rápida biografia:


Nascido no dia 12 de agosto de 1874, há 137 anos, no vilarejo de San Miniato, na Toscana, é curioso o pouco conhecimento sobre a figura de Oreste Ristori, fato que talvez se deva as constantes releituras de sua posição ao longo das lutas e sua atuação mais carecterizada pela militância cotidiana do que pela produção teórica.

Ristori sofreu a vida toda uma extensa vigilância e foi classificado pela polícia como um “anarquista exaltado, prepotente e temível”. Grande orador e agitador, foi expulso de quase todos os países por onde passou: Itália, França, Argentina e Brasil.

Participou também grandes ações diretas e dirigiu por muitos anos o periódico “La battaglia” que só posteriormente passaria as mãos de Gigi Damiani.

Temeroso com a ascenção fascista(ditatorial) no Brasil e desiludido por não ver o estouro de um grande movimento revolucionário em terras latino-americanas acabou sendo deportado para a Itália onde, apartado do seu grande amor e companheira Mercedes e junto com outros anarquistas, foi sumariamente assassinado pelas autoridades fascistas.

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Fontes e mais informações:

Livro: Oreste Ristori: uma aventura anarquista - Carlo Romani - São Paulo: Annablume ; Fapesp, 2002. ( Preview disponível no Google Books )
Wikipedia

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Há 155 anos: Max Stirner

Morreu esquecido em 1856, veja abaixo sua biografia segundo o livro "História do anarquismo":

Johann Kaspar Schmidt nasceu em 25 de outubro de 1806, em Bayereuth, na Baviera - Alemanha.

Muito cedo órfão de um pai fabricante de flautas, abandonado por sua mãe que tornou a casar-se, Johann conseguiu, contudo, realizar estudos universitários. Impressionados com a extensão de sua fronte (em alemão stirn), seus condiscípulos colam-lhe o apelido que utilizaria mais tarde como pseudônimo: Stirner.


Aos 28 anos, enfrenta o exame pro facultate docendi mas não obtém o título de doutor de Estado. Em Berlim, uma instituição privada para moças aceita os serviços desse jovem professor, viúvo após seis meses de casamento, e que vive naquele momento com uma mãe louca. À noite, após seus cursos, Stirner frequenta a taverna de Hippel, onde se reúne ruidosamente a "Liga dos livres". Segundo E. Armand:
"Entre os livres discutia-se de tudo e sobre tudo: política, socialismo, anti-semitismo, teologia e a noção de autoridade"
Sob a fumaça dos longos cachimbos e no rumor das canecas de cerveja, Stirner, "tranquilo inimigo de toda coerção", dizia Engels, sempre um pouco apartado do burburinho e dos gritos, não permanece insensível aos encantos de Maria Dänhardt, que se torna sua segunda esposa em 1843. Em 1844, Stirner publica seu único livro: O único e sua propriedade. De saída, é o triunfo. Mas logo sobrevém a miséria. A direção do instituto de moças julga oportuno afastar-se de um professor tão original. Trabalhos obscuros de tradução, a fundação de uma leiteria, que fracassa, não conseguem salvar Stirner das garras dos credores. Após dois anos na prisão, morre esquecido em 25 de junho de 1856.

O associativismo livremente consentido

É preciso aguardar os trabalhos do escocês educado na Alemnhã John Henry Mackay, ao final do século XIX para que o nome e a obra de Stirner ressucitem e assumam um lugar de destaque na história do anarquismo. O único e sua propriedade é com efeito, segundo a expressão de Victor Basch, "A bíblia do anarquismo individualista ou do individualismo anarquista". Como toda bíblia, só revela seu segredo ao final de uma lenta meditação.

Inversamente a Feuerbach, que erige o homem ou a humanidade em absoluto, Stirner vê no eu individual, o eu em carne e osso, o supremo valor:
"Por que preciso realizar o humano em geral? Minha tarefa é contentar-me em bastar-me. Sou Eu que sou minha espécie. Sou sem regra, sem lei, sem modelo."
Assim, é fundamental livrar-se de toda essa ganga de alienações que as Igrejas, as Leis, o Estado e a Burguesia liberal edificaram no decorrer de séculos. Ao final da empresa purificadora, O Único vê como sua propriedade tudo o que se oferecia a ele; só reconhece um único direito: o direito a seu bem-estar.

A vida social só é possível e válida pela associação voluntária embasada em um contrato resilível. Essa associação de "egoistas"( ego = eu ) proporcionará, com efeito, mais fruições e bem-estar do que uma vida solitária. O individualismo resulta assim no associativismo livremente consentido.

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Referências:
Livro: História do Anarquismo - Tradução: Plínio Augusto Coelho. São Paulo: Ed. Faísca: Imaginário, 2008. Páginas: 18 a 20.
Ilustrações: ArthurMag
Ebook: O Único e a sua Propriedade

quinta-feira, 9 de junho de 2011

O gato negro no anarquismo

O Gato Negro, também chamado "gato selvagem" ou "gato montês" ("wild cat" em inglês), se mostra normalmente com as costas arrepiadas e com as unhas e os dentes para fora. Está fortemente relacionado com o anarquismo, especialmente o anarcosindicalismo.

Foi desenhado por Ralph Chaplin, uma conhecida figura do sindicato estadunidense Industrial Workers of the Word (IWW). A palavra "wildcat" exprime a idéia de selvagem ou feroz em inglês, então, como sua postura sugere, o gato simboliza greves autônomas - não autorizadas pelas diretivas dos sindicatos - (wildcats strikes) e o sindicalismo radical.


A origem do símbolo do gato negro é pouco claro, mas de acordo com uma história este vem de uma greve que estava passando por seu pior momento. Vários de seus membros haviam sido golpeados e mandados ao hospital. Logo um gato doente e negro caminhou entre o acampamento dos grevistas. O gato foi alimentado pelos operários grevistas e no momento em que o gato recobrou sua saúde a greve deu uma virada positiva. Eventualmente os operários em greve conseguiram algumas de suas reivindicações e adotaram o gato como mascote.

O nome de Gato Negro tem sido usado por numerosos coletivos e cooperativas, incluindo à um muito conhecido lugar musical em Austin, Texas, Estados Unidos (que fechou depois de um incêndio em 6 de julho de 2002) e um agora extinto "coletivo de cozinha" na University District of Seattle, Washington.


Como símbolo, o gato negro tem sido historicamente associado com bruxaria, maus agouros e morte. Se remonta às históricas culturas dos Hebreus e Babilônios. O uso pela bruxaria persiste nos tempos modernos; os anarquistas compartilham o símbolo do gato negro com a bruxaria e a Wicca, mas geralmente nenhuma das anteriores o representa com suas costas curvadas em posição de luta.

agência de notícias anarquistas-ana

Cascavel enrodilhada
Desmente a paz prometida
Nos gorgeios da alvorada.

Lubell

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Mais infos na Wikipedia.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Há 115 anos: Mário Castelhano

Há 115 anos, no dia 31 de Maio de 1896, nascia o militante anarcosindicalista português Mário Castelhano em Lisboa.

Uma rápida biografia

Mario Castelhano, o militante anarcosindicalista português era diretor do periódico “A Batalha”, da CGT, quando foi empastelado pelos facistas e sua publicação suspensa. Morreu no campo de concentração de Tarrafal em 12 de outubro de 1940.

Mas além de ser um precioso militante do sindicato CGT, se destacou também como uma das figuras de grande estrutura moral entre os deportados ao campo de concetração, em virtude da sua coragem, espírito elevado e os exemplos que deu de companheirismo, ganhando o respeito de todos.

Foi o terceiro filho de um casal modesto de comerciantes. Aos 14 anos começou a trabalhar como balconista no escritório do telégrafo. Mas com perseverança logo se tornou um qualificado bibliotecário.

Morreu em um campo de concentração facista.

Um pouco mais sobre Mario Castelhano

Ele se envolveu na atividade sindical muito cedo e logo se deparou com uma escolha entre a atuação reformista e libertária. Ele optou pelo sindicalismo revolucionário e participou da greve ferroviária de 1911 após a introdução da República e o desapontamento que as classes trabalhadoras nutriam nela. Mas foi na greve de 1914 que ele participou com uma formação mais completa.

A República se ocupou de acabar com o movimento operário que já tinha se posicionado contra a participação portuguesa na Grande Guerra e o governo se concentrou em combater a greve que acaba derrotada.

As ações de Castelhano auxiliaram à classe trabalhadora a permanecer unida e firme em seu vigor sindical – crucial em um período em que a crise econômica provocada pela guerra era tão séria, com salários atrasados e enorme carestia de vida.

Em 1918 os trabalhadores ferroviários travaram uma luta enérgica, atraindo ainda mais a repressão do governo até o ponto de vagões cheios de grevistas serem capturados e presos a comboios tripulados por soldados e enviados contra os ferroviários.

Apesar da greve não obter sucesso total, algumas demandas foram atendidas e a renasce a atividade sindical, com a confederação mantendo sua força de combativa. Em 1920 uma greve ferroviária foi declarada em todas as redes. Dois homens em especial se destacaram na coordenação da greve: Mário Castelhano e Miguel Correa. No entanto, novamente eles foram alvos da repressão do estado e a greve obteve sucesso parcial mesmo com a demissão de Mário Castelhano e outros sindicalistas.

Mario manteve sua militância no setor que continuava a vê-lo como ferroviário, tornou-se diretor do jornal operário “O Ferroviário” e incutiu nele um distinto sabor sindicalista revolucionário.

A Revolução Russa levou alguns sindicalistas para o setor comunista mas Castelhano, como praticamente todos os membros, permaneceu na CGT. A autodeclarada ditadura do proletáriado o empurrou ainda mais para o setor anarcosindicalista.

Dessa forma Mario intensificou a construção de quadros sindicais e ajudou na organização da conferência intersindical dos trabalhadores ferroviários em Oporto em 1921. Na ocasição ele foi delegado para a comissão organizadora do primeiro congresso sindical dos trabalhadores ferroviários em Junho de 1922, no qual a Federação ferroviária foi lançada.Mario se tornou secretário de assuntos internacionais.

No congresso, Miguel Correia, um líder militante das redes estatais do sul/sudeste propôs que a Federação se afiliasse com a reformista “International Trade Union Federation”. Castelhano apontou os inconvenientes de tal afiliação.

Ele foi posteriormente eleito editor chefe do jornal da Federação ferroviária e em 1926 entrou no conselho representativo da CGT. Em pouco tempo ele ocupa o cargo de Santos Arranha como diretor do porta-voz da CGT: “A Batalha”.

Em um período de transformaçoes políticas, Castelhano com seus valores sublimes de militante revolucionário além de sua moral ideológica estavam estampados claramente na resposta política do “A Batalha” que não vacilou perante aos eventos após a revolta de 28 de Maio de 1926 que içou um governo reacionário ao poder..

O ano seguinte, 7 de fevereiro de 1927, uma revolta estourou em Lisboa na sequencia de uma em Porto. Apesar da revolta emanar do campo republicano, que desfrutou de mais apoio dos trabalhadores, na manhã do dia 7 de fevereiro de 1927 foi publicada com os equipamentos do Diário de Notícias e explicitou sua posição política.

Quando a revolta foi esmagada, A Batalha foi suspenso, a CGT foi declarada ilegal e entrou na clandestinidade. Pouco tempo depois os equipamentos do jornal da CGT foram empastelados (destruídos) pela polícia.

Castelhano foi às bases, participando do conselho da CGT e estabelecendo ligações com os sindicatos que ainda operavam, embora observados de perto pela polícia secreta que emanavam da PIDE.

Em Junho daquele ano Castelhano, Rijo, Alvaro Ramos, Quintal, Ferreira da Silva e muitos outros foram capturados e no dia 15 de novembro foram deportados de navio para a sinistra prisão de ‘Pedro Gomes’.

Castelhano e Rijo acabaram em Novo Redondo - Angola, onde encontraram trabalho de escritório em uma plantação. Eles foram muito bem recebido por conta de seu tratamento exemplar e digno da população negra.

A saúde de ambos fizeram com que eles fossem transferidos para Azores. Mario acabou na ilha de Pico.

Em 1931, quando um levante popular explodiu em Madeira com apoio dos presos políticos, Castelhano, Rijo, Goncalves Bibi, Fernando Barros e outros militantes libertáriosforam reunidos em Funchal e se engajaram no trabalho sindical junto aos moradores. Castelhano, Rijo and Bibi, com as ações determinadas da companheira Margarida Barros, esconderam-se em um sótão e foram “contrabandeados” para fora de Lisboa escondidos entre o carvão, por um foguista abordo do Lima.

Mario retomou suas atividades na CGT no começo de 1933. Foi quando Salazar impôs sua legislação facista no que diz respeito aos sindicatos e às condições de trabalho. Militantes anarquistas, embora dizimados pela repressão emplacável ao longo de sete anos de lutas incessante, começaram a preparar o terreno para a greve geral de 18 de janeiro de 1934, na qual Castelhano estava muito envolvido até ser preso após dois dias.

Como todos os companheiros perseguidos pela repressão que se seguiu ele foi deportado para Angra do Heroismo e daí para o Tarrafal.

Em Tarrafal, Castelhano se destacou pela sua sólida formação moral fundada sob energia e integridade. Isso transpareceu durante a autodenominada “perigo agudo” quando o acampamento foi tomado por uma epidemia. A maioria dos presos eram acamados sem medicamentos. Trazendo sua autoridade moral para auxiliar, e incentivado pelos companheiros, Mario organiza a assistência da melhor forma possível com o que os poucos recursos permitem. Mesas, cadeiras, tudo foi utilizado para o aquecimento da água de abastecimento questionável para suprir a carência em medicamentos. E assim que a crise passou, Castelhano sucumbiu em poucos dias se queixando de dores no estômago.

Até aqueles que não compartilhavam suas ideias libertárias não lhe negaram homenagem e respeito.

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Adaptado do “A Batalha” (Lisboa) de 16 de Novembro de 1974 Traduzido do site: http://libcom.org/history/mario-castelhano

terça-feira, 5 de abril de 2011

Há 85 anos: Jaime Cubero

Completaria hoje 85 anos o anarquista Jaime Cubero
Que seu exemplo siga vivo entre nós

Colamos abaixo um texto muito difundido na internet em que a historiadora Margareth Rago fala sobre ele:

Quem foi Jaime Cubero

Ativo militante, jornalista, intelectual e pedagogo, Jaime dedicou sua vida à difusão das idéias anarquistas; militou desde cedo no Centro de Cultura Social, no bairro operário do Brás em São Paulo, fundado em 1933. Nascido em Jundiaí, cidade operária próxima a São Paulo, descendente de imigrantes espanhóis, perdeu o pai aos 2 anos de idade. Aos 7, vem para SP, onde passa a morar com irmãos e avós no bairro da Móoca. Fez o curso primário na rede oficial de ensino , mas aos 10 anos teve de abandonar os estudos para trabalhar. Autodidata, conheceu o sr. Liberto, seu vizinho anarquista, que lhe passa alguns livros anti-clericais e com o qual organiza um grupo de estudos libertários. Passados alguns anos, organizam o Centro Juvenil de Estudos Sociais. Esteve envolvido nas lutas de resistência contra a Ditadura do Estado Novo, entre 1937-45. Em fins de 45, o grupo entra em contato como o Centro de Cultura Social, que reabria no Brás. Passa a freqüentá-lo e é convidado a ingressar no mesmo por outro conhecido anarquista, Edgard Leuenroth.

Logo mais, convidado a ser secretário do Centro, onde trabalha nos jornais e no Grupo de Teatro. Em 54, deixa SP e vai trabalhar na redação do jornal O Globo do Rio de Janeiro, onde fica até 64. Nesta cidade, encontra José Oiticica, cuja casa passa a freqüentar e participa do jornal Ação Direta, que aquele dirigia.

Demitido do jornal O Globo, pela ditadura militar, em 1964, por liderar uma greve dos gráficos, volta a São Paulo. Viveu ao lado da companheira Maria, denunciando as injustiças sociais, defendendo a liberdade, pregando os ideais anarquistas. Teve importante contribuição nos meios acadêmicos e estudantis, orientando inúmeras teses sobre a história das lutas sociais no país, além da pedagogia libertária.

Ajudou a formar vários intelectuais e militantes anti-autoritários. No CCS, organizou inúmeras atividades, ciclos de palestras ,debates e participou de congressos nacionais e internacionais como "Outros 500. Pensamento Libertário Internacional", na PUC/SP, 1992 e no Congresso Internacional de Barcelona, em 1993. Recentemente, participa da elaboração da revista Libertárias, que vem sendo publicada pela Editora Imaginário, sob direção de Plínio Coelho e Edson Passetti.

Morre aos 71 anos de idade, no dia 21 de maio de 1998, vítima de problemas de saúde.

Margareth Rago

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A foto acima retirada deste site.